Tag: saúde mental adolescência

  • Ansiedade na palma da mão: quando o tempo de tela rouba o tempo de ser adolescente

    Ansiedade na palma da mão: quando o tempo de tela rouba o tempo de ser adolescente

    A adolescência sempre foi um território de descobertas, mudanças e vulnerabilidades. Mas, nos últimos anos, esse percurso tem sido atravessado por um elemento silencioso, onipresente e muitas vezes invisível: o uso excessivo das mídias digitais. Redes sociais, jogos, notificações constantes, mensagens, curtidas, embora pareçam inofensivos, funcionam como gatilhos para transtornos como a ansiedade, depressão e outras manifestações de sofrimento psíquico afetando o bem-estar de jovens em formação.

    “Essa fase mais crítica costuma ser a pré-adolescência e adolescência inicial, entre 11 e 15 anos. É quando os jovens buscam pertencimento e validam sua autoimagem pelo olhar dos pares, tornando-se mais vulneráveis aos efeitos das redes sociais”, explica a psicóloga Talita Marques Molinari.

    A busca por aprovação digital, a comparação constante e a exposição interminável contribuem para pensamentos de inadequação, baixa autoestima e sintomas ansiosos ou depressivos.

    A dependência crescente das telas é uma questão urgente de saúde mental. É direito de adolescentes viverem um desenvolvimento de forma equilibrada, sem serem engolidos pela pressão do mundo virtual, sem que o tempo online consuma o tempo de ser, de se divertir, de conversar, de se descobrir.

    Impactos visíveis do uso excessivo de telas

    A transformação das interações sociais, antes presenciais, em conexões digitais mudou a maneira como os jovens aprendem e se divertem. No entanto, a hiperconectividade trouxe vulnerabilidades: distúrbios do sono, irritabilidade, queda no rendimento escolar e até isolamento social. 

    Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Saúde na Era Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria, alerta que sinais de dependência digital podem comprometer o rendimento escolar e o convívio familiar.

    “Também observamos padrões preocupantes de isolamento social, além de dificuldades escolares. Os adolescentes apresentam sinais de dependência digital, com prejuízos importantes para o bem-estar emocional e social”, destaca Evelyn. 

    Segundo Talita, o cenário se agravou com a pandemia e seus desdobramentos: “Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, os casos de ansiedade entre adolescentes cresceram bastante, muitas vezes ligados ao excesso de comparação social e à hiperconectividade”.

    Nesse contexto, a ansiedade nem sempre se apresenta de forma explícita: pode se esconder atrás de uma tela acessa, e se manifestar em dificuldade de concentração e até mesmo em evasão das aulas.

    Nomofobia: o medo de desconectar

    O termo nomofobia, derivado de “no mobile phone phobia”, descreve o medo irracional de ficar sem celular. Estudos apontam que mais de 60% dos jovens já sentiram angústia ao se desconectar por poucas horas. “O celular se tornou a principal ponte com o mundo: é onde conversam, estudam, se divertem e buscam aprovação. A ausência do dispositivo pode gerar sintomas físicos e ansiedade”, alerta Evelyn.

    A dependência é potencializada por redes sociais que exibem vidas perfeitas: filtros impecáveis, rotinas editadas e padrões inalcançáveis aumentam a pressão sobre adolescentes, intensificando a hipervigilância e os riscos de cyberbullying. 

    Para Isabelly Rivas, 15 anos, estar conectada faz parte da rotina, mas não substitui o prazer de outras experiências. “Gosto de ler livros e fazer atividades como vôlei e dança. Apesar de me incomodar, gosto quando minha mãe impõe limites para o uso das redes sociais”.

    Construindo limites saudáveis

    Especialistas recomendam que adolescentes tenham no máximo duas horas de uso recreativo diário de telas, equilibrando com esportes, leitura, convivência social e momentos em família. “Estabelecer limites envolve escuta, negociação e, principalmente, o exemplo dos adultos. Não adianta proibir o celular na mesa se os pais não largam os seus próprios aparelhos”, afirma Evelyn.

    Fabiana Rivas, mãe de Isabelly Rivas, observa mudanças positivas com regras bem definidas: “Quando os celulares foram proibidos na escola, o horário do almoço se transformou em um momento de diversão, de colocar a conversa em dia, jogar vôlei e estar com os amigos. Procuro ensinar a importância de usar a tecnologia de forma consciente, dando exemplos práticos e conversando sobre os impactos do excesso de tela”.

    Para Talita, a escola é uma aliada fundamental: “Pode promover educação digital, rodas de conversa, oficinas socioemocionais e incentivar momentos de desconexão, favorecendo o contato presencial e o desenvolvimento de habilidades emocionais”.

    O cuidado com a saúde mental dos jovens exige atenção, empatia e ação coletiva. Pais, educadores e instituições precisam criar redes de proteção que equilibrem o digital e o real, garantindo que adolescentes tenham direito ao lazer, à convivência e ao tempo de ser. Em meio à urgência de notificações e mensagens, o gesto mais necessário talvez seja simplesmente perguntar: como você está? Porque, por trás de uma tela acesa, pode haver um pedido silencioso de ajuda.

  • Como cuidar da saúde mental na infância e adolescência?

    Como cuidar da saúde mental na infância e adolescência?

    Todas as pessoas podem apresentar problemas psicológicos, emocionais e comportamentais em alguma fase da vida. Porém, a infância e adolescência são períodos cruciais para que os indivíduos desenvolvam uma boa saúde mental. Crianças e jovens com condições de saúde mental, quando não tratados, podem perder momentos preciosos de suas vidas. As crianças que sofrem com as dificuldades de um transtorno mental, por exemplo, podem deixar a escola precocemente e, em consequência disso, ter no futuro dificuldades para se relacionar ou conseguir um emprego. Por isso, a atenção plena à saúde da mente na infância e adolescência faz muita diferença na vida adulta. 

    Por outro lado, a falta de informação sobre o tema ainda existe e resulta, muitas vezes, no negligenciamento de parte da população sobre a importância dos cuidados à saúde mental. No dia a dia, os transtornos mentais assumem muitas formas na população que sofre com eles. Alguns são leves e interferem, muitas vezes, de maneira limitada na rotina das pessoas, como certas fobias (medos anormais). Outros são tão graves que podem levá-las aos hospitais e necessitam de cuidados constantes, como a esquizofrenia, depressão e o autismo. 

    O Estado, a sociedade e os profissionais da educação também têm papel fundamental na proteção, prevenção de riscos e promoção de políticas públicas voltadas ao tema. Medidas e ações inclusivas para as crianças e os adolescentes no ambiente escolar e social em que vivem, por exemplo, fortalecem o papel cuidador e protetivo da família.

    Acolhimento e tratamento

    Assim como as doenças comuns do corpo, que atingem o coração, os rins e a pele, os transtornos mentais também são tratáveis e precisam de cuidados. Na medicina, o profissional responsável pela saúde e condições da mente é o psiquiatra, entretanto, os psicólogos também atuam no diagnóstico, prevenção e tratamento dos transtornos mentais.

    Para cada problema existe um tratamento eficaz e adequado, seja ela depressão, transtorno de ansiedade, personalidade, alimentar, emocional etc. Além do apoio dos familiares das crianças e dos adolescentes, o acolhimento e cuidado profissional é um fator essencial para o controle e recuperação da saúde mental. 

    De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria e o Hospital Albert Einsten, existem algumas ações que ajudam na prevenção ao suicídio e proteção às condições mentais, diminuindo os fatores de riscos e aumentando o bem-estar e a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes. São elas: 

    • Reforço das relações afetivas, principalmente, dos pais, familiares e amigos com a criança e o adolescente;
    • Promoção do diálogo e da escuta ativa, sem julgamentos;
    • Envolvimento em atividades prazerosas ou que tenham significado para a criança ou jovem, como a leitura, música, cinema e hobbies em geral; 
    • Estabelecimento de horários e rotina para as atividades;
    • Alimentação e sono saudáveis; 
    • Consultas de rotina ao médico;
    • Administração das emoções e da resiliência;
    • Prática regular de exercício físicos.

    É essencial que, com o acolhimento e apoio da família, as crianças e os adolescentes busquem formas saudáveis e construtivas de enfrentar e tratar as condições de saúde mental.